Nov 20, 2009

Então, em que é que ficamos?!


Hoje na Diverge sentámo-nos à hora do almoço com a comida da Go natural a ver o Objectified.

Alguns dos pensamentos enquanto via este documentário que faz pensar a nossa profissão.


Estamos na era da personalização total, a utopia vigente é a de “um pessoa, um produto”. Desta forma, quando desenhamos os produtos pensamos neles como plataformas, flexibilizadas ao máximo dentro dos limites da eficácia logística. Essa flexibilização tem um custo, que atinge todos os sectores de produção, logística, serviço e final de vida.


Henry Ford que dizia que os clientes podiam desejar modelos T de qualquer cor desde que fossem pretos, tinha uma visão assente na optimização industrial que ele desejava materializar. Se supostamente o direito à diferença é algo que está inerente à condição humana, como é que esse direito co-habita com as nossas responsabilidades para com a sociedade e para com o planeta?


O mercado dos microondas está saturado, a comoditização da tecnologia e o facto de duas empresas chinesas terem entre elas e contra os seus clientes OEM encetado uma guerra de preços levou o mercado ao ponto de ruptura onde se encontra. A Whirlpool estudou o mercado e a utilização que os consumidores fazem do aparelho e colocou no mercado um microondas compacto e com as costas redondas, permitindo uma colocação no canto das bancadas, um benefício simples mas tangível num mercado estagnado. O aparelho é interessante (parece uma televisão pequena), custa mais 20% que os outros no mercado. Não vende. Chama-se o efeito cama redonda, as pessoas dizem “ai que giro”, mas depois compram uma cama rectangular. Queremos realmente diferenciação e diversidade?


As garantias de 10 anos e para toda a vida deixaram de existir, as pessoas já sabem que se vão fartar dos produtos e a garantia deixou de ser uma oferta que eles valorizam. Aceitamos e entendemos que os produtos se comecem a deteriorar 1, 2 a 3 anos depois de chegarem ao mercado, contamos com isso. Ao mesmo tempo, ambicionamos produtos para toda a vida, aqueles produtos que realmente contam, os que escolhemos se vier um furacão e só pudermos levar 10, os que nos acompanham e foram transmitidos na família, os que têm uma história para contar, uma narrativa que só nós valorizamos. Os produtos devem ser efémeros, e dessa forma estamos preparados para coisas em materiais perecíveis, ou queremos coisas que tenham e ganhem significado, e durem para sempre?


Não pensem que estou frustrado, ou que este dilema irresolúvel é um drama. Esta é a realidade do ser humano, imperfeito, sensível e influenciável, racional e irracional, com que os designers trabalham todos os dias. É nesta dinâmica de serviço ao cliente, ao mercado, ao utilizador, ao planeta, aos nossos antepassados e aos nossos filhos que vivemos, no exercício de uma profissão pouco respeitada mas cujo papel na cultura e sociedade ultrapassa a de criar bonecos e fazer coisas.

Nov 9, 2009

Criativo, ou espertalhão?



Façamos um teste: Uma fila enorme com muitos carros, com vias fluidas à esquerda ou à direita, você na fila calmamente há 20 minutos e mesmo quando se inicia o risco contínuo, um carro mete-se à sua frente com ou sem pisca. Isso para si é ser criativo ou espertalhão? Se respondeu criativo, não estamos de acordo sobre a definição do termo. Se você acha que, para se ser um bom empresário é mais importante ser-se espertalhão que criativo, não estamos de acordo sobre o que é um bom empresário.

Eu acho que Portugal está cheio de gente que confunde esperteza com criatividade. E de gente passiva que aceita este tipo de atitudes. Isto aplica-se a todos os modos de vida, mas quando se trata de empresários, o assunto ganha outras proporções. Isto porque quando se precisa construir uma empresa, gerir um projecto, fazer a empresa crescer ou até mesmo reestrutura-la, a criatividade e a esperteza podem ter resultados muito diferentes. Principalmente a médio e longo prazo.

Para mim a criatividade é uma extensão da inteligência, e a verdadeira inteligência é sempre estrutural, ampla e generosa. Sempre defendi a criatividade como elemento fundamental da gestão. Os melhores gestores assim o comprovam, e quando essa criatividade é natural e explicita, ela vê-se e sente-se na totalidade da empresa, torna-se um modo de vida dos empresários e das empresas. O problema é que sempre que falamos de criatividade alguém assume como algo contraditório a actos próprios de gestão, a ter os “pés na terra”. Mesmo agora quando já é aceite que a criatividade pode ser ensinada e treinada, continua a existir um medo da criatividade sem rumo, descontrolada. Numa formação recente com a presença de um especialista da reputada IMD (Suíça), quem estava presente entendeu que mesmo numa empresa criativa por natureza e onde aparentemente o processo criativo é caótico, existem estruturas, mecanismos, controlo, responsabilidades, gestão, resultados. Mas tudo isto difere daquilo que muitos empresários assumem como sendo a definição dos termos citados.

Sempre me queixei que empresários fossem educados e formados sem conhecimento e experiencia daquilo que agora se apelida de “design thinking”, ou seja, os fundamentos da pratica de design. Também é um facto que os designers continuam a ser formados sem entendimento do contexto económico e industrial onde vão operar, mas os casos empresariais mais bem sucedidos no mercado resultam de empresários criativos e designers com noções de gestão, associados temporariamente ou de forma mais sustentada, de forma inteligente, partilhando o risco e o sucesso.

“A inovação resume-se a uma série de actividades divergentes e depois convergentes – um conceito muito simples, mas um que muitos lideres experientes na gestão de processos têm dificuldade. Por “divergência” queremos dizer a disposição para explorar coisas que parecem estar longe de onde está o seu negócio hoje. O desconforto que muitos empresários têm com a inovação é com a divergência. Eles acham que a divergência vai durar para sempre e que não serão capazes de se focar em algo que faça sentido do ponto de vista do negócio. Eu acho que é aí que muitos líderes de negócio têm historicamente problemas no que toca aos seus departamentos de inovação internos: eles têm a sensação que as suas áreas estão sempre a divergir. Se entenderem que a convergência vem a seguir á divergência, e que é muito difícil convergir sem antes divergir, talvez isto lhes traga algum conforto.”
Tim Brown, CEO of IDEO

Aug 28, 2009

Esgotado!


Fico sempre fascinado quando produtos e serviços supostamente genéricos saltam para fora de forma tão excepcional que se esgotam, que se tornam desejados ao ponto das pessoas esperarem por eles, pessoas comuns dispostas a pagar muitas vezes valores astronómicos.

Isto é tão interessante como com um produto como o Fiat 500 (notícia por altura do lançamento “Fiat 500 atinge 175 mil pedidos – Fila de espera pode chegar a um ano”), ou com um restaurante como o El Bulli do Ferran Adrià (“O El Bulli senta anualmente 8,000 pessoas, todos os anos recebe cerca de meio milhão de pedidos para estes 8,000 lugares”), ou mais recentemente com uma conferência como a TED.


Esta conferência começou em 1984 com o propósito de juntar pessoas de 3 mundos distintos: Tecnologia, Entretenimento, Design. Hoje tem uma marca invejável, com a conferência global na Califórnia (“ TED2008 esgotou mais de um ano antes do evento, e tinha uma lista de espera de mais de 3,000 pessoas”), a TEDGlobal no Reino Unido, a TEDIndia a partir deste ano, e as TEDx (x = Evento TED organizado de forma Independente), que são conferências locais organizadas por quem quer usar a marca TED. Em Portugal, vai ocorrer a primeira TEDx Edges a 18 de Setembro, com o patrocínio da Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento. O poder da marca é tal que, quer por parte dos oradores convidados, quer dos inscritos (já tem uma lista de espera de 300 pessoas para 150 lugares grátis), a resposta foi imediata.


Se nalgumas situações pode ser considerado uma operação de marketing que se esgota na fase do lançamento, quando acontece de forma consistente e ao longo do tempo há que aceitar que há mais por detrás de tal sucesso. Em todos estes casos existem razões distintas, e algumas que a razão desconhece. No caso do Fiat 500 pode-se argumentar que existiu uma combinação feliz do design com a engenharia, que é mais um exemplo da exploração do filão “retro” tanto em voga, que responde às tendências de carros compactos e “poupadinhos”. No caso do El Bulli trata-se da inteligência e do talento de um Ferran Adrià, da escolha de caminhos inovadores na culinária, da dedicação a um conceito de serviço, de anos de trabalho. No caso TED estou convencido que tem a ver com um fenómeno de partilha de conhecimento sem precedentes, simbolicamente defendido nesta frase: “Riveting talks by remarkable people, free to the world”. Em nenhum outro caso um organizador de conferências se tinha dado ao trabalho de colocar online, com acesso fácil e grátis, todas as conferências (atingiram agora o Nr. 500) efectuadas ao longo dos anos. E conseguiram fazer isto sem banalizar a ida ao evento, que é considerada uma experiência impar e que continua a esgotar em todos os locais onde se realiza. Boa lição de inteligência…emocional!

Crónica de um mau design, ou de uma má gestão!


Comprei umas molas da roupa, dessas à venda numa grande superfície. Tinham marca de fornecedor, Fapil. As molas estão no limiar da escolha do papel higiénico, querem-se funcionais e basta. Digo no limiar porque mesmo a Renova tem provado que há papel higiénico e papel higiénico, e existem pessoas que teimam em comprar umas molas que parecem instrumentos cirúrgicos, ou que são giríssimas mas não prendem a roupa.


Na próxima vez que fui estender roupa - sim eu estendo a minha roupa, comecei a dar-me com uma molas que se retorciam mesmo antes de serem usadas. As molas metálicas usadas não são as adequadas às partes plásticas, ou vice-versa, e elas desmontam-se por si próprias. Eu agora deparo-me com um dilema que submeto ao V/ senso comum.


Eu cada vez que tenho que usar as molas digo mal da vida. Começo por dizer mal da grande superfície, mas passo muito rapidamente para dizer mal do fornecedor e da marca. Sou suficientemente humilde para começar a dizer mal do designer, mas depois a experiência diz-me que provavelmente estas molas nunca passaram pelas mãos de um designer. Sem dúvida que houve várias pessoas a tomar decisões de design, mas duvido que aquele produto seja resultado de um projecto de design. Mais ainda, acredito que alguém pode ter reparado que a mola se comportava da maneira como se comporta, mas achou que isso não seria um problema, que pelo preço das mesmas isso era uma consequência, que quem não gostasse comprasse outras. Deitando estas fora.


Acontece que eu não sou capaz de deitar as molas fora, e não vou comprar outras até um dia que me sinta compelido a tal, e isso tem um impacto cada vez mais forte na marca das molas, possivelmente importadas da Ásia com a marca do importador. De tal forma que cada vez que as uso digo mal da vida, uso este caso e cito a marca (aqui não, por decoro…) para falar de má gestão de design e marca, escrevo textos sobre o assunto.


Alguns dos meus clientes da área industrial, dos produtos de consumo, aproximam-se e pedem-me para lhes criar uma marca. A minha resposta costuma ser que eles deviam se concentrar em fazer bons produtos, de forma consistente, prestar um bom serviço aos seus clientes e à comunidade, durante 10 anos, e que a marca seria criada de forma natural e robusta. Possivelmente com menos investimento que na criação de uma marca artificial ou momentânea, que cria expectativas que depois a empresa não é capaz de sustentar.


Jun 12, 2009

Inovação sem produtos é verdadeiramente inovação?


Fui no outro dia convidado a estar presente no 6º Encontro Nacional de Inovação COTEC sobre o tema Inovação em Rede. Gostei do evento, tema actual, convidados de alto calibre, comentadores credíveis, organização profissional. Na parte da tarde do evento foram atribuídos os Prémio Produto Inovação COTEC – Unicer e menções honrosas, tendo sido uma boa surpresa a quantidade e diversidade dos agraciados. Apesar de terem explicado que o termo produto diz respeito a bens e/ou serviços, a lista dos premiados demonstra uma realidade interessante: 1º prémio para a Hovione com a Secagem de Partículas por Atomização, um processo do leite em pó (citado pelo Peter Villax como exemplo de inovação aplicada versus invenção) que permite à empresa novas formas farmacêuticas, impossíveis de realizar com as técnicas anteriormente existentes. Nenhum produto físico à vista, sendo habitual nestes casos e para efeitos de protecção de Propriedade Intelectual, a corporização do processo num determinado produto para que seja mais fácil de proteger.


Um Prémio Especial Indústria Tradicional (que não deixa de ser interessante como definição…) para a Salsa com as suas jeans Wonder. Um produto cuja inovação assenta no entendimento do que pretendem as mulheres de umas jeans e na capacidade de materializar produto de marca própria. Depois as menções honrosas, à Critical Links com a EdgeBox, à N’Drive, Priberan e Smartgate, todos eles à excepção do NLP da Priberam, produtos. Isto numa economia supostamente de serviços, com gente de peso na economia nacional em áreas como banca e retalho. Isto significa que a Inovação de produto em Portugal está de boa saúde, certo?


Recentemente a Business Week publicou um artigo com o título The Failed Promise of Innovation in the US e levanta uma questão importante e pertinente. Faz referencia a esta década como uma em que as promessas feitas de uma inovação que trouxesse benefícios de longa duração à economia falhou, cita 11 áreas onde supostamente foram feitos investimentos maciços e onde supostamente estávamos à beira de materializar produtos e serviços inovadores, falha esta que pode ser entendida como uma parte substancial da falha do próprio sistema económico. A pergunta que faz é "onde estão os produtos" e defende que uma economia suportada somente nas tecnologias de informação não é suficiente, faz ligações inteligentes entre a capacidade industrial, a economia gerada de forma directa e indirecta, as exportações.


Um artigo que faz pensar no estado da indústria em Portugal, em Espanha, nos investimentos feitos e nos que estão para vir, na necessidade de ultrapassar os preconceitos e de aprender a ler as estatísticas.