Feb 20, 2009

EMEL: sistema hermético e infalível

Sim, apanhamos multas!
Sim, irritamo-nos!
Sim, não há tolerância!
Sim, chateiam!
Sim, não cumprem a essência da sua existência (arranjar as vias públicas)!
Sim, é desagradável!

Mas nem tudo é mau!!!! Há muito que aprender no universo EMEL, porque sim, estamos presentes a um dos melhores sistemas montados que até agora pude vivenciar.

Na passada segunda-feira, dois amigos e colegas da Diverge (a Sónia e o Agostinho) e eu estivemos envolvidos numa das confrontações intelectual e pedagogicamente mais estimulantes que tive nos últimos tempos e……. foi com a EMEL.

A história que se segue servirá, não para tratar este blogue como uma via de desabafo (como poderia à partida ser percebido), mas porque em cada uma das fases da confrontação tivemos a oportunidade de entender regras que deverão formatar o desenvolvimento de um sistema para que este seja hermético e infalível.

Assim, a EMEL é uma entidade com “Design thinking” - não tratando aqui o Design como adjectivo-do-belo-e-moderno, mas como disciplina de criação de sistemas, como é o caso do sistema EMEL que passo a descrever:

Contexto: Dia 16 de Fevereiro de 2009, parque de estacionamento da Gulbenkian (lado do Centro de Arte Moderna): Chegada às nove horas do Agostinho, e o parquímetro avariado (aliás dei-me conta que os técnicos chamam parcómetro, que é muito mais delicado e correcto). Onze horas da manhã, chegada da Sónia, e parquímetro avariado (desculpem, o meu inconsciente teima em ignorar a palavra linda ‘parcómetro’). Dez para as duas da tarde, chegada da Margarida (eu) e parquímetro continuava avariado.

Nesse dia tivemos que nos ausentar os três tendo chegado junto dos nossos carros (viaturas, que é muito mais técnico) por volta das 17h30m. Os mesmos estavam multados e bloqueados, apesar dos avisos dentro dos mesmos em papelinhos que diziam – “parquímetro avariado” (se calhar por não dizer ‘parcómetro’ ignoraram).
A carrinha-bloqueadora ainda lá estava. Doze carros encontravam-se bloqueados numa zona onde raramente há bloqueios porque tudo é cumpridor e pagador fiel da empresa polémica.
E lá fomos nós intrigadíssimos, solicitar explicações.

E aqui começa a aventura do interface com o sistema-hermético-e-infalível-EMEL.


Algumas regras (9, como as regras de ouro) que fazem do sistema EMEL uma obra-de-arte pelo design:

  1. Cada elemento do sistema tem apenas uma única tarefa e responde directamente ao sistema central.
    Como é óbvio os senhores da carrinha-bloqueadora só bloqueiam; a sua tarefa consiste apenas nisso - bloquear. Não sabem nada mais, nem querem saber. Respondem ao sistema central que lhes disse: parquímetro em funcionamento (ai, lá estou eu outra vez – desculpem, que se leia parcómetro). E nem se preocupam se os carros (leia-se viaturas) estão há mais de 4h “ilegais” ou à menos de 4h, que supostamente é o período de tolerância.
    O sistema só está preparado para agir segundo o mantra: não há bilhetinho, não há carrinho!
  2. Cada elemento do sistema é autónomo e auto-suficiente.
    Os senhores-vigilantes, aqueles senhores (e senhoras) vestidos de macacão verde com a maquineta ao pescoço que atentamente policiam as ruas à procura de prevaricadores, não têm qualquer influência nem contacto profissional com os senhores das carrinhas-bloqueadoras. Cada um faz as suas tarefas bem delineadas e limitadas, e cada um dispara informação contraditória, mas que nada influi com o resultado final – neste caso o bloqueamento. A senhora-vigilante da zona dizia que às 14h o parcómetro (eh lá, consegui!) já estava em funcionamento, mas isto porque a sua colega que saía do turno lhe passou a informação. Ao passo que os senhores da carrinha-bloqueadora juravam a pés juntos que desde as 9h da manhã tudo estava em ordem porque o sistema central assim o dizia.
  3. O sistema na sua totalidade é independente do factor humano
    Ainda que estes dois elementos soltassem informação contraditória, a senhora-vigilante e os senhores da carrinha-bloqueadora, o que importa é aquela que o sistema central envia, e este emitiu a informação que os parcómetros sempre estiveram bons, ou pelo menos desde as 9 da manha que estavam a funcionar em pleno. Portanto, as contradições não são importantes, nem mesmo a vivencia das situações em primeira pessoa: a nossa e a diferentes horas do dia. E agora o mais interessante - que mais uma vez nos vislumbra e dá acesso a uma outra regra que deve sempre estar presente ao projectar um sistema hermético e infalível: quem passa informação ao sistema? O próprio sistema! E quem verifica que o sistema recebe a informação correcta? O próprio sistema!
    Ora aqui nos apresenta a quarta regra essencial para criar um sistema perfeito:
  4. Sistema é auto-regulável (não há presença de elementos externos ao sistema)
    As avarias dos parcómetros são detectadas pelo sistema central que envia um técnico especializado para arranjar o parcómetro avariado. Estas operações são registadas no sistema central que descrevem os dados “factuais” do processo, ou seja:
    a) A que horas ficou avariado;
    b) A que horas o técnico foi enviado;
    c) A que horas o parcómetro ficou em funcionamento.
    Estes dados “factuais” são controlados internamente pela EMEL. Ou seja, o sistema controla-se a si mesmo. E caso haja contradição entre os vários elementos do sistema o que prevalece são os registos da EMEL no sistema central. Nós como elementos externos ao sistema (neste caso os utilizadores-obrigados) identificámos as horas de avaria do parcómetro ao longo da manhã e princípio da tarde, o que nos ilibavam do bloqueamento e da multa (pois as 4h ainda não tinham passado). Porém o que o sistema diz está dito, e em nenhum caso temos acesso a estes registos no momento do acontecimento (ou seja no acto do bloqueamento e do nosso confronto com os senhores da carrinha-bloqueadora). Possivelmente posteriormente teremos acesso a esses registos, e isto significa que podem ser alterados e reajustados mediante as necessidades (da EMEL claro!).
    Não digo aqui que o são, mas também não digo que não o são; porque afinal quem controla o sistema é o próprio sistema, e como bom sistema jamais dirá que está errado!
  5. Não há contacto directo
    Todo o interface do sistema que é feito entre a EMEL e o utilizador-obrigado (nós todos os que estacionamos o carro em zonas controladas pela EMEL) é feito através de máquinas. Isto é uma solução a aprender porque:
    a) Não há alarido ('mulheres à beira de um ataque de nervos'? );
    b) Não há discussões, nem vilões;
    c) Não há desvios porque não há troca de informações;
    d) Não há queixas;
    e) Não há favores.
    A nossa experiência demonstrou-nos que ninguém fala, ninguém pode falar, ninguém informa e ninguém pode informar.
    Chamámos a polícia (o que parece ridículo, já que deverá existir inúmeros casos muito mais importantes para solucionar do que viaturas bloqueadas), porque os senhores da carrinha-bloquedora começaram com as estratégias de intimidação a pedirem-nos a identificação, a serem rudes, e a ameaçarem-nos. Claro que o trabalho deles não deve ser fácil, no fundo são os “papões” da EMEL, mas o nosso também não o é, e o que é preciso é tanto eles como nós, entendermos que somos meros peões de um sistema muito bem montado. Claro que para um trabalhador do sistema virar-se contra o próprio sistema é um acto de coragem e, talvez nos tempos que correm, de inocencia, pois põe em risco o seu posto de trabalho. Por isso não é fácil.
  6. Comunicação unilateral (one way only and close circuit)
    Tal como em cima foi detectado, todas as vias de comunicação existentes são de apenas uma via: a EMEL é emissora unicamente ou é receptora unicamente, dependendo da fase do processo. Não existe diálogo. Falamos com máquinas e raramente com pessoas, e estas últimas são tratadas e ensinadas a agir como máquinas: Não dão informação e tudo é tratado segundo “o sistema central” – cérebro maquiavélico inquestionável!
    E se queremos sair da situação do bloqueamento a pagar apenas 60 euros (e digo apenas com relutância), sem correr o risco de escalar esse valor mais e mais ao não desbloquear o carro imediatamente, temos que agir conforme o sistema montado à la EMEL, ou seja: pagando! (ah! e não pode ser com visa).
    Para que exista comunicação propriamente dita, ou seja, os 3 elementos básicos presentes ao mesmo tempo (emissor, mensagem e receptor), teremos que levar o caso aos tribunais. E tal como nos foi dito por um senhor elemento-ainda-humano da EMEL (cuja sua capacidade humana ainda não tinha sido completamente extinta pelos treinos EMEL): “há casos muito mais injustos e piores que o vosso que perdem porque tudo está a favor da EMEL. No vosso caso teriam que ir ao parcómetro mais próximo e assim não teriam sido bloqueados”.
    Ainda estou meia horrorizada, ou seja: sou obrigada a pagar por um serviço que é virtual, porque afinal não existe: tudo continua esburacado, e as vias publicas não melhoram, e quando melhoram não é com o dinheiro da EMEL. Diria mesmo que Lisboa deveria ser um caso de estudo a nível internacional pois é a cidades onde o alcatrão derrete, e os passeios são crateras vulcânicas sem fim, tornando-se ofensivo a acessibilidade para qualquer cidadão com capacidades diminuídas ou até mesmo para quem anda com carrinhos de bebés. E não só pago por um serviço inexistente, como também, caso os elementos físicos desse serviço estejam em mau funcionamento: “mea culpa”! Pois terei que andar mais de 400 metros até ao parcómetro mais próximo (200 para cada percurso) para não ser castigada e punida pelo serviço EMEL que sou-obrigada-a-querer-comprar!
    Atenção, eu acho que os bons investimentos de um país são aqueles feitos nas suas infra-estruturas, e a sua prioridade não deveriam ser parques de estacionamento e entidades vigilantes dos mesmos, mas sim transportes públicos, ou melhor MOBILIDADE PÚBLICA, assim usaríamos menos o carro.
    Porém, ainda que nos possam fazer tragar a mensagem “verde” de que um dos papéis da EMEL é esse, verdade seja dita, a EMEL não foi criada sob o pretexto de: diminuir o fluxo de viaturas privadas em Lisboa!
    Por isso, se queremos comunicar é melhor prepararmo-nos para uma longa viagem de requerimentos, queixas, advogados, etc, etc, etc, onde à partida o resultado está prescrito: ser favorável para a EMEL.
    Isto indica-nos outra regra importante na hora de projectar um sistema infalível:
  7. Omnipresença
    Ao criar um sistema infalível é importante estar em todo o lado e traçar uma dependência bem delineada entre os vários produtos do sistema (entre os elementos físicos por exemplo), para se caso um falha, o outro poder substitui-lo em qualquer altura, como acontece com a EMEL: caso um parcómetro se encontre avariado, lá nos teremos que deslocar ao mais próximo, porque as regras assim o ditam. E caso não o façamos, somos repreendidos. O mesmo se passa com a legislação: senão conhecemos as regras do sistema (leis), problema nosso, porque somos obrigados a sabê-las. Com a EMEL é idêntico, mesmo que não se tenham feito esforços nenhuns para que saibamos as regras, porque sabendo-as claro que encontrariamos uma forma de as cumprir e, caso necessário, ultrapassar.
  8. Regras simples
    O sistema foi montado de forma a haver um poder único: chamar-lhe-emos Poderosa EMEL. Estamos presentes a uma ditadura; a Poderosa EMEL tem soberania inequívoca dentro do seu universo, e está, senão acima, ao mesmo nível que um polícia de trânsito (nesta matéria claro!). A autoridade legal da Poderosa EMEL ultrapassa a nossa compreensão e fomos nós, os utilizadores-obrigados, que indirectamente subscrevemos a entrega desse poder totalitário, pois deixámos que a Câmara Municipal de Lisboa cria-se esta entidade estatal e lhe atribuísse tais direitos:
    a) Os EMELEIROS podem passar multas;
    b) Os EMELEIROS têm o direito e o dever de pedir identificação (apesar de nós nos podermos recusar a dá-la e exigir um policia);
    c) Os EMELEIROS podem multar e bloquear quem eles achem por directo – tendo ou não bilhetinho como prova de pagamento; esteja ou não o parcómetro avariado; porque quem dita se isso é verdade ou não, não são as provas factuais, são as provas-EMEL.
  9. Filiação em grupos de poder
    Como em todas as disciplinas, profissões e mestrias, um dos mais importantes marcos é o reconhecimento entre os pares, e o mesmo se passa com a EMEL.
    A EMEL conquistou um lugar ao sol no que diz respeito aos seus pares:
    a) É reconhecida nos meios legais pois actua dentro da lei e é um órgão público; dito isto é fácil entender que a lei foi feita aos seus moldes;
    b) É reconhecida na polícia de segurança pública e de trânsito como sistema fechado (daí eu chamar-lhe hermético) onde eles como agentes da autoridade não podem fazer mais nada senão pactuar;
    c) É reconhecida pelos nossos governantes como um órgão público essencial ao bom funcionamento de uma cidade (ainda estou para entender porquê);
    d) E finalmente é reconhecida por nós mesmo, pois compactuamos com o sistema, quer seja como trabalhadores da EMEL, quer seja como utilizadores-obrigados.
    No fundo a EMEL não só desenhou um sistema legalmente inquebrável, como ela mesma pertence a um sistema invisível de poderio que instala as regras a que temos que responder. Touché!
    Por isso, uma das regras que teremos que ter em conta para criar um sistema inviolável é pertencer ou fazer parte também do sistema governamental, desta forma podemos sempre responder atempadamente aos desafios.


Como bom sistema hermético, o sistema EMEL não falha. E o utilizador-obrigado pouco ou nada pode fazer.
Porém isto só acontece enquanto actuarmos sozinhos, e enquanto continuarmos a deixar que sistemas como estes só funcionem por e numa única via (monólogo nas suas diferentes escalas de actuação), ou seja: centrado no bem-estar da EMEL, sem que haja mais-valias para a população (bem-estar social); para os utilizadores (como indivíduos); e para os pagantes (mais valias do serviço)! [e este três elementos são o mesmo elemento – nós!]

Mas é claro que para qualquer sistema existe sempre um contra-sistema.

E nós portugueses somos especialistas em gerar contra-sistemas: em criar universos paralelos para a sobrevivência da nossa saúde mental e boa disposição.

E por isso dei-me conta que muita gente que é multada e/ou bloqueada (a sua viatura, claro), depois de ter tentado reagir contra o sistema indo pela via legal, opta futuramente pelo contra-sistema como acção revolucionária e silenciosa.
Muitas acções deste contra-sistema caiem na regra elementar do enganar-o-sistema, que consiste em pedir a um indivíduo de um qualquer carro que esteja a sair do estacionamento, a sua prova de pagamento. Esta prova (o bilhetinho) é posteriormente agregada à nossa multa e com isso prova que se pagou (mesmo e quando o pagamento não era possível, tal como foi o nosso caso relatado aqui como exemplo, onde o parcómetro estava avariado).

E assim exploramos nós o nosso capital humano em Portugal: a inventar contra-sistemas porque o sistema oficial corrói a nossa sociedade.

E como queremos e podemos nós falar de sustentabilidade?
Aaaaaaaaaaaaah, já sei! Pomos os parcómetros a funcionar com células fotovoltaicas (energia solar) e assunto resolvido!!!
Ficaríamos assim com um sistema-hérmetico-e-infalível-e-sustentável

....................lindoooooooo não é?!


P.S.- Eu, Margarida Monteiro de Barros, como cidadã e alfacinha, venho desta forma (ainda e também), prestar os meus agradecimentos à EMEL por esta lição de design-de-sistemas.

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