Hoje na Diverge sentámo-nos à hora do almoço com a comida da Go natural a ver o Objectified.
Alguns dos pensamentos enquanto via este documentário que faz pensar a nossa profissão.
Estamos na era da personalização total, a utopia vigente é a de “um pessoa, um produto”. Desta forma, quando desenhamos os produtos pensamos neles como plataformas, flexibilizadas ao máximo dentro dos limites da eficácia logística. Essa flexibilização tem um custo, que atinge todos os sectores de produção, logística, serviço e final de vida.
Henry Ford que dizia que os clientes podiam desejar modelos T de qualquer cor desde que fossem pretos, tinha uma visão assente na optimização industrial que ele desejava materializar. Se supostamente o direito à diferença é algo que está inerente à condição humana, como é que esse direito co-habita com as nossas responsabilidades para com a sociedade e para com o planeta?
O mercado dos microondas está saturado, a comoditização da tecnologia e o facto de duas empresas chinesas terem entre elas e contra os seus clientes OEM encetado uma guerra de preços levou o mercado ao ponto de ruptura onde se encontra. A Whirlpool estudou o mercado e a utilização que os consumidores fazem do aparelho e colocou no mercado um microondas compacto e com as costas redondas, permitindo uma colocação no canto das bancadas, um benefício simples mas tangível num mercado estagnado. O aparelho é interessante (parece uma televisão pequena), custa mais 20% que os outros no mercado. Não vende. Chama-se o efeito cama redonda, as pessoas dizem “ai que giro”, mas depois compram uma cama rectangular. Queremos realmente diferenciação e diversidade?
As garantias de 10 anos e para toda a vida deixaram de existir, as pessoas já sabem que se vão fartar dos produtos e a garantia deixou de ser uma oferta que eles valorizam. Aceitamos e entendemos que os produtos se comecem a deteriorar 1, 2 a 3 anos depois de chegarem ao mercado, contamos com isso. Ao mesmo tempo, ambicionamos produtos para toda a vida, aqueles produtos que realmente contam, os que escolhemos se vier um furacão e só pudermos levar 10, os que nos acompanham e foram transmitidos na família, os que têm uma história para contar, uma narrativa que só nós valorizamos. Os produtos devem ser efémeros, e dessa forma estamos preparados para coisas em materiais perecíveis, ou queremos coisas que tenham e ganhem significado, e durem para sempre?
Não pensem que estou frustrado, ou que este dilema irresolúvel é um drama. Esta é a realidade do ser humano, imperfeito, sensível e influenciável, racional e irracional, com que os designers trabalham todos os dias. É nesta dinâmica de serviço ao cliente, ao mercado, ao utilizador, ao planeta, aos nossos antepassados e aos nossos filhos que vivemos, no exercício de uma profissão pouco respeitada mas cujo papel na cultura e sociedade ultrapassa a de criar bonecos e fazer coisas.
No comments:
Post a Comment